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Biografias musicais ganham destaque no Oscar

Canção PerfeitaCanção Perfeita—27 de março de 20260
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As cinebiografias são um gênero complicado do cinema. Com isso, eu quero dizer que a maioria dos filmes, pelo menos os mais populares, são ruins mesmo, e a gente só assiste biografias musicais ou de artistas fora da música porque quer ver mais sobre quem admiramos.

Não pense que eu fico feliz ao dizer isso: como um fã dos Beatles desde a adolescência e consumidor de qualquer coisinha nova que é lançada sobre eles, a tarefa hercúlea de assistir QUATRO filmes sobre a banda, dirigidos por um cineasta que não me interessa e com algumas escolhas questionáveis de casting está cada dia mais perto de se impor sobre mim como uma obrigação moral, uma vez que os tais longas têm previsão de lançamento para 2028.

Espero não ter perdido a sanidade até lá e voltar aqui pra dizer que foi uma experiência ótima.

Pode parecer contraditório, mas foi essa minha falta de amor às biopics que me fez aceitar a ideia de escrever sobre cinebiografias musicais aqui pro Musicult. Por se tratar do mês do Oscar, a mais equivocada das premiações que deixou de reconhecer a potência do cinema brasileiro pra paparicar o novo filme mediano com o DiCaprio, vamos aproveitar esse sabor gostoso que a cerimônia deixou nas nossas bocas e falar delas:

As biografias musicais que, de alguma forma, ganharam o reconhecimento da Academia. E você sabe que eu vou começar falando de uma das arcadas dentárias mais infames de Hollywood.

Bohemian Rhapsody (2018)

Se você me perguntasse antes do lançamento, eu diria que Bohemian Rhapsody seria um filme difícil de errar. O Queen, afinal, é uma das bandas mais gostáveis da história do Rock. A mais vendável, mais pop, que agrada dos 8 aos 80 anos (até hoje, minha avó elogia a montagem de fotos da minha festa de seis anos ao som de Somebody to Love).

Enumerar os erros de Bohemian Rhapsody é uma tarefa fácil. Eu poderia reclamar da dentadura do Rami Malek, do próprio Rami Malek ou da montagem aceleradíssima que antecipou o cinema TikTok alguns anos antes do seu ápice, e que inexplicavelmente venceu o Oscar de Melhor Montagem. É muito difícil tratar o Oscar como uma premiação séria. Mas divago.

Tudo isso seria repetir o que é dito por aí desde que o filme foi lançado, entretanto. O grande erro do longa é ser um dos piores representantes da cinebiografia Wikipedia, conceito para o qual eu pretendo voltar algumas vezes ao explorar as cinebiografias, mas que é muito simples de entender: são raras as exceções de filmes que cobrem a vida ou a carreira inteira de um artista, do nascimento à morte, que conseguem chegar a um resultado sequer mediano.

O cinema é a mais versátil das artes, e essa versatilidade precisa ser posta em prática sobretudo ao contar histórias que as pessoas já conhecem: escolher um momento importante na vida de um artista, que foque de preferência em poucos meses ou anos, estabelecer bem um conflito e focar na resolução deste conflito, seja positiva ou negativa, é a minha abordagem preferida para o gênero.

O que nos leva a…

Um completo Desconhecido (2025)

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Atualmente controverso membro do clã Kardashian, Timothée Chalamet foi o responsável por chatear inúmeros fãs idosos de Bob Dylan ao ser anunciado como o intérprete do cantor quando jovem, como se esperassem que o próprio Dylan, aos oitenta e poucos, interpretasse a si mesmo aos 20.

Fato é que Timothée fez um excelente trabalho ao entregar um Bob Dylan em um momento muito específico de sua vida: jovem, arrogante e cheio de si. O longa se inicia junto à carreira de Dylan, mas sabe muito bem quando abandonar a história da jovem estrela.

Trata-se de um filme sobre o dilema entre honrar a tradição e superá-la em busca do novo. Respeitar seus ídolos ao mesmo tempo que se busca a identidade própria. O filme possui um antagonista muito bem definido: a guitarra elétrica. E seria um excelente filme mesmo que trocasse Bob Dylan, Pete Seeger e Johnny Cash por personagens fictícios. Em suma: trata-se de uma boa história, e ponto. É nisso que o gênero costuma falhar.

A Complete Unknown foi indicado a 8 categorias no Oscar, mas não venceu nenhuma, o que seria perfeitamente aceitável se Bohemian Rhapsody não tivesse vencido 4.

Também é possível cobrir a história de um artista do começo ao fim sem cair na armadilha da biografia wikipedia: para isso é necessário brincar com a forma, um dos elementos que separam o cinema da vida real e que, infelizmente, é constantemente deixado pra trás. Um dos meus expoentes preferidos dessa abordagem é…

Rocketman (2019)

Taron Egerton não se parece muito com Elton John, e sinceramente nem soa muito como o artista. Também não dá pra dizer que ele é um ator incrível. Isso não é um problema, ainda mais em um mundo onde Rami Malek e sua dentadura levaram para casa o Oscar de Melhor Ator por Bohemian Rhapsody. Vai entender.

O que explicaria, então, o fato de que eu passei meses ouvindo a trilha sonora de Rocketman cantada por ele em vez de ouvir as mesmas músicas na voz do próprio Sir Elton John? A resposta está na forma.

Rocketman é integralmente contado em flashbacks, e se inicia no momento em que o próprio Elton é confrontado com a necessidade de lidar com seu vício em álcool e drogas. A partir desse momento, ao adentrar uma reunião de narcóticos anônimos com um de seus figurinos mais espalhafatosos, começa a conversar com uma versão mais jovem de si ao mesmo tempo que conta sua própria história para os presentes.

Além de ser a cinebiografia de um músico, Rocketman também é um musical, e aproveita a extensa obra de Elton John para contar a história pessoal e profissional do músico, com números de dança que tornam o filme mais interessante do que uma mera recontagem dos fatos.

Por mais que atravesse toda a vida do artista, Rocketman não deixa de lado o argumento principal: o de que Elton percebeu que não aguentaria muitos mais anos de vida caso não deixasse de lado o abuso de substâncias.

Elton John, como sabemos, ainda está vivo (e vem ao Rock in Rio 2026), mas mesmo assim o filme passa uma sensação de conclusão satisfatória à história que está contando. O motivo é simples: trata-se de um filme, não de uma simples recontagem dos fatos. A obra foi indicada a apenas um prêmio, e venceu a categoria de Melhor Canção Original. Melhor que nada.

São muitos os filmes indicados ao Oscar que eu poderia continuar citando neste texto, como Ray,Walk the Line e Straight Outta Compton, mas sei que a sua paciência tem limite, e os três exemplos trazidos ajudam a sustentar meu argumento em relação ao aspecto que considero mais importante não apenas nas biopics, mas no cinema como um todo: a forma.

E eu até poderia te dar um spoiler sobre a próxima edição desta coluna que explora a música e o cinema, mas eu estaria mentindo, porque ainda não decidi nada.

Me conta então nos comentários: qual sua biopic musical

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