No dia 2 de maio, o Hangar 110 foi palco de uma noite que reafirmou a relevância do hardcore como uma cultura comunitária, manifestando-se através da interação vibrante entre os artistas e o público. Organizado pela Solid Music Entertainment, o encontro entre Bane e Stick To Your Guns transformou a casa em um espaço de união para diferentes gerações da cena musical, todas ligadas por intensidade, mensagens fortes e uma entrega inabalável durante todo o evento.
Mais do que apenas um lineup de bandas, a ocasião sublinhou a força do circuito independente e a durabilidade de artistas que continuam relevantes sem se apoiar unicamente na nostalgia. O que se observou foi uma troca contínua entre palco e plateia, onde cada apresentação contribuía para intensificar o sentimento de pertencimento coletivo, criando um ambiente onde a participação do público se mostrou tão significativa quanto as performances das bandas.
Uttara
A banda Uttara, originária de Goiânia, abriu a noite com confiança e um peso sonoro que rapidamente tomou conta do espaço. Misturando influências do hardcore nova-iorquino com elementos do metal, suas guitarras densas e afinações graves criaram momentos de tensão que precediam explosões sonoras impactantes.
Músicas como “What is Done is Done” e “Look at Me Now” funcionaram como introduções diretas em um set intenso, onde cada faixa tinha um papel crucial na construção da atmosfera geral. A banda apostou em impactos imediatos, sustentados por riffs marcantes e mudanças rítmicas bem elaboradas, evitando qualquer repetição na sonoridade.
No decorrer da apresentação, “Ad Hominem” evidenciou o controle dinâmico do grupo ao alternar entre momentos mais lentos e explosões rápidas, mantendo o público envolvido. Mesmo com a casa ainda se enchendo, a resposta da plateia começou a crescer gradualmente, indicando que a banda conquistava seu espaço naturalmente.
Entre as canções, os membros do Uttara enfatizaram a importância da união no underground e compartilharam detalhes sobre sua longa viagem até São Paulo. O relato das 12 horas na estrada trouxe um aspecto humano para o show, reforçando a conexão com os presentes e transformando sua apresentação em um testemunho genuíno de dedicação.
Stick To Your Guns
Dando sequência à noite, o Stick To Your Guns elevou imediatamente a intensidade assim que entrou em cena, mostrando que não haveria respiro na transição entre as bandas. Apesar da ausência do baixista Andrew Rose, o quarteto manteve um desempenho coeso com guitarras nítidas e uma base rítmica sólida que sustentava seu peso sem perder clareza.
A canção “Diamond” abriu o set e provocou uma reação instantânea do público, que começou a se movimentar desde os primeiros acordes. O espaço diante do palco logo se transformou em um mar de pessoas realizando stage dives em sequência contínua sem mostrar sinais de desaceleração.
A frente da banda estava Jesse Barnett, que conduziu a performance com carisma e presença marcante, equilibrando sua intensidade vocal com interações diretas com a plateia. Sua forma de comunicação ajudou a manter o ritmo elevado durante todo o show, criando uma sensação de proximidade que ampliava ainda mais o impacto das músicas.
O repertório incluiu faixas representativas da carreira da banda como “Nobody”, “We Still Believe” e “Nothing You Can Do To Me“, todas acompanhadas por coros vibrantes que frequentemente superavam o som emitido pelo palco. As músicas “Amber” e “Spineless” mantiveram alta energia enquanto “This Is More” destacou ainda mais a característica coletiva daquela apresentação.
Certa vez durante sua fala, Jesse expressou seu interesse pela política da América Latina e como isso influencia sua visão de mundo, mencionando apoio ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Essa reflexão pareceu estar integrada à proposta da banda, que sempre navegou entre música e ativismo social.
No meio da apresentação ocorreu um pequeno incidente: um stage dive resultou em uma queda preocupante. A pausa foi breve para assegurar que tudo estava bem antes de retomar o show com mesma intensidade até chegar à música “Against Them All“, encerrando esse segmento com uma catarse coletiva palpável.
Bane
Pela última vez na noite, o Bane subiu ao palco recebendo uma resposta calorosa do público ansioso por continuar naquela energia elevada. A canção “Non-Negotiable” abriu o set com participação intensa dos presentes, que assumiram os vocais desde os primeiros versos mantendo alta vibração durante toda a performance.
Aaron Bedard, à frente da banda, liderou a apresentação com carisma envolvente e diálogo constante com os fãs. Sua postura ajudava a criar uma atmosfera familiar como se cada retorno ao Brasil fosse uma continuidade natural das visitas anteriores.
A sequência musical avançou por faixas como “Can We Start Again” e “Ante Up“, mantendo um fluxo estável sem perda de intensidade. A interação com os fãs continuava sendo central nessa dinâmica; muitos ocupavam parte do palco participando ativamente.
Músicas como “Swan Song” e “Calling Hours” trouxeram à tona emoções mais profundas dentro do setlist. No entanto, essa energia não se esvaiu; ela apenas se transformou para preparar o terreno para um dos momentos mais marcantes daquela apresentação.
No auge de “My Therapy“, o coro coletivo tomou conta do ambiente quase completamente; foi um instante compartilhado onde banda e público pareciam indistinguíveis. Este foi claramente um dos pontos altos da noite não só pela música em si mas pela forma intensa como foi vivenciada.
A apresentação culminou com “Final Backward Glance”, solidificando toda a atmosfera construída ao longo daquele espetáculo. Com constante movimentação, participação ativa dos fãs e uma clara sensação de comunidade no ar ficou evidente que a força do hardcore presente ali não residia somente nas músicas mas na experiência coletiva proporcionada por elas.
(*) Crédito das fotos: Mara Alonso (@mara.alonsoph)
A publicação sobre Bane e Stick To Your Guns destacando uma noite intensa no Hangar 110 aparece aqui pela primeira vez no Musicult – Música e Cultura Pop.
