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Briga entre pais e filhos e dívida de R$ 140 milhões: como a gigante Marabraz entrou em crise

Canção PerfeitaCanção Perfeita—17 de agosto de 20260
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Origem do problema passa pela forma como a família estruturou o patrimônio construído ao longo das últimas décadas

A crise de 140 milhões de reais da rede varejista Marabraz tem como origem um drama das empresas familiares brasileiras: problemas de sucessão.

A rede paulista de móveis, que chegou a ter 135 lojas e construiu sua marca principalmente entre consumidores de renda popular, pediu recuperação judicial após enfrentar uma combinação de restrição de crédito, disputa societária e deterioração das condições do varejo.

O passivo, de 140 milhões de reais, ainda pode sofrer alterações ao longo do processo.

O pedido ajuda a revelar uma crise que até agora aparecia para o consumidor principalmente pelo fechamento de unidades e pela redução da operação. Na petição, a própria Marabraz coloca uma ruptura familiar e societária no centro do problema: os administradores da operação perderam acesso aos imóveis que, durante anos, serviram como garantia para empréstimos bancários.

“As disputas societárias e familiares alteraram substancialmente o modelo de financiamento que, durante décadas, sustentou a operação”, afirma a Marabraz na petição de recuperação judicial. A informação também está na nota da varejista à imprensa.

Como foi a briga familiar que levou a Marabraz a uma recuperação judicial

A origem do problema passa pela própria forma como a família estruturou o patrimônio construído ao longo das últimas décadas.

A Marabraz nasceu de um negócio iniciado por Abdul Hamid Mohamad Fares, imigrante libanês que chegou ao Brasil na década de 1950 e abriu, em 1965, a Credi-Fares, na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo.

Depois de sua morte, em 1978, os filhos, entre eles Nasser e Jamel, continuaram a operação. Em 1986, a família comprou a marca Lojas Marabraz, nome derivado de “Maravilhas do Braz”.

A rede cresceu nas décadas seguintes. Abriu dezenas de lojas, construiu centros de distribuição e transformou campanhas com Zezé Di Camargo & Luciano e o slogan “Lojas Marabraz, preço menor, ninguém faz” em parte de sua estratégia para alcançar o público popular. Virou uma gigante do varejo.

Ao mesmo tempo, parte do dinheiro produzido pelo negócio foi direcionada para imóveis. Segundo a petição, uma estrutura patrimonial separada da Marabraz passou a concentrar imóveis comerciais, centros de distribuição e outros ativos ligados à Marabraz.

Esses imóveis tinham uma segunda função: serviam de garantia para empréstimos.

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Era uma peça importante da máquina financeira da varejista. A empresa precisava de capital para comprar mercadorias, carregar estoques e financiar sua operação. Ao negociar com bancos, conseguia reforçar essas operações oferecendo os imóveis como garantia.

Em resumo, o dinheiro que sobrava da operação da Marabraz era investido em imóveis não associados à empresa, mas que eram usados como garantia para tomar crédito no banco.

A estrutura funcionou durante décadas. Até a família se dividir.

A holding patrimonial que reúne parte dos imóveis mais relevantes ficou sob controle da geração mais nova, formada por integrantes das duas famílias envolvidas no grupo.

Com o rompimento, esses imóveis deixaram de ficar disponíveis para garantir novas operações da Marabraz.

Em 2024, dois dos irmãos da segunda geração, Nasser e Jamel, foram à Justiça para processar filhos e sobrinhos e reaver as partes da holding que já tinham passado para os herdeiros. Ganharam em primeira instância em março de 2025. Em setembro, o Tribunal de Justiça de São Paulo reverteu a sentença.

Ou seja: os donos da Marabraz perderam o direito de usar os imóveis como garantia. E sem garantias, o crédito ficou mais caro.

Crise chegou aos bancos

A perda das garantias mexeu diretamente com o acesso da Marabraz a capital de giro. Segundo a companhia, bancos passaram a pedir novas garantias, reduziram limites, aumentaram o custo dos empréstimos e, em alguns casos, deixaram de renovar linhas de crédito.

Para uma varejista, o impacto é rápido. É preciso colocar dinheiro no estoque antes de receber pela venda. Também há despesas com aluguel, logística, funcionários, tecnologia e fornecedores.

Sem as linhas que tradicionalmente financiavam esse intervalo, uma parcela maior do caixa produzido pelas lojas passou a ser usada para pagar obrigações financeiras de curto prazo.

A empresa descreve na recuperação um ciclo de deterioração: menos crédito provocou menor liquidez; a falta de liquidez elevou a percepção de risco dos bancos; e o risco maior dificultou ainda mais a obtenção de dinheiro.

A disputa aconteceu em um momento ruim para depender mais de bancos.

Na recuperação judicial, a Marabraz cita juros elevados, retração do consumo, aumento da inadimplência e avanço do comércio digital entre os fatores externos que pressionaram a atividade. Desafios que têm pressionado outras varejistas, como a Casas Bahia, que protocolou nesta segunda-feira, 17, um pedido de recuperação judicial com dívida na casa dos 17 bilhões de reais.

A companhia sustenta, porém, que esses fatores não explicam sozinhos a crise. O argumento central é que a piora do ambiente econômico ocorreu quando a empresa já havia perdido parte de sua capacidade histórica de acessar crédito.

Isso tornou mais caro financiar estoque e operação num período em que o próprio varejo precisava de mais caixa.

O cenário também atingiu outras redes de móveis e bens duráveis nos últimos anos. Empresas do setor convivem com uma combinação difícil: o consumidor é sensível à parcela, enquanto o varejista precisa pagar juros maiores para financiar estoque, antecipar recebíveis e sustentar vendas parceladas.

Na Marabraz, a pressão chegou ao ponto de provocar fechamento de unidades e demissões antes do pedido de recuperação.

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