Existem bandas que fazem ruído intenso e outras que conseguem transformar o silêncio, as pausas e sutis variações rítmicas em elementos fundamentais de suas composições. O toe é um exemplo notável desse segundo grupo.
O quarteto japonês retorna ao Brasil em setembro, com apresentações agendadas para os dias 17 e 18 no Cine Joia, em São Paulo. Esses shows são promovidos pela Balaclava Records e celebram as duas décadas e meia de trajetória da banda.
Ainda há ingressos disponíveis apenas para a apresentação do dia 17.
Esta volta ocorre oito anos após a última vez que o grupo esteve no país, trazendo de volta uma das formações mais originais da cena instrumental japonesa.
Ao longo de seus 25 anos de atividade, o toe desenvolveu uma sonoridade que desafia classificações simples. Embora inclua elementos de math rock e post-rock, também incorpora influências do jazz, emo e música eletrônica. Essa mistura é realizada de maneira tão fluida que a banda não precisa optar entre leveza e intensidade.
Originário de Tóquio, o grupo foi fundado em 2000 por Takashi Kashikura (bateria), Takaaki Mino e Hirokazu Yamazaki (guitarras) e Satoshi Yamane (baixo). A formação permanece inalterada desde seu início, o que contribui para a harmonia entre os integrantes.
Discografia
O álbum de estreia, The Book About My Idle Plot On A Vague Anxiety, foi lançado em 2005 e rapidamente se tornou uma obra essencial na carreira da banda. O disco apresenta guitarras entrelaçadas, melodias suaves e mudanças rítmicas que conferem um movimento contínuo às faixas. A bateria de Kashikura desempenha um papel crucial nessa dinâmica, não apenas acompanhando as guitarras, mas também guiando cada transição musical.
Em 2009, o grupo lançou For Long Tomorrow, um álbum que expandiu ainda mais suas possibilidades criativas. O toe preservou sua precisão rítmica característica enquanto introduziu arranjos mais suaves com instrumentos acústicos, piano, vibrafone e vocais. A faixa “Goodbye”, com a participação da cantora Toki Asako, exemplifica essa busca por ultrapassar os limites do rock instrumental.
Os trabalhos seguintes incluem Hear You, de 2015, e Now I See The Light, programado para 2024.
Embora a discografia do toe não seja extensa para uma banda com um quarto de século de história — incluindo um álbum ao vivo chamado Doku en Kai, lançado em 2021 — isso pode fazer parte de sua essência. O grupo nunca pareceu apressar-se em lançar novas músicas apenas por lançá-las; cada projeto acrescenta algo à linguagem musical já estabelecida pela banda, mantendo uma identidade persistente mesmo diante das mudanças estilísticas.
Essa identidade pode ser a razão pela qual o toe conquistou públicos diversos ao longo dos anos. Os admiradores do math rock se encantam com os ritmos complexos e a precisão dos músicos. Aqueles que têm afinidade com emo e hardcore podem perceber a carga emocional nas melodias, enquanto os fãs do jazz encontram espaço nas interações instrumentais.
No palco
Ao vivo, toda essa sonoridade assume uma nova dimensão. A ausência de um vocalista elimina a figura central que normalmente atrai olhares. Assim, a atenção flui entre os instrumentos: a bateria pode impulsionar a música adiante; uma guitarra pode assumir a melodia; o baixo pode alterar completamente a atmosfera de uma passagem. É uma performance que exige concentração do público, mas recompensa aqueles que se dedicam a notar todos os detalhes.
A celebração dos 25 anos da banda ocorre de maneira coerente com sua trajetória. Em vez de simplesmente fazer uma retrospectiva dessa data significativa, o grupo opta por retomar os palcos e apresentar composições que continuam encontrando novas formas de se expressar. Em São Paulo, serão duas noites para vivenciar esse diálogo entre precisão técnica, improvisação, silêncio e som.
(*) Crédito da foto: Divulgação
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