No dia 11 de outubro, o centro da cidade foi palco de uma manifestação marcante contra a ascensão da extrema-direita, enquanto o Cine Joia se preparava para receber a banda El Mató a un Policía Motorizado, que celebra quase duas décadas de trajetória.
A famosa banda argentina retornou a São Paulo para apresentar seu mais recente álbum, Súper Terror (2023), dois anos após sua memorável apresentação sob o sol abrasador do Primavera Sound São Paulo. Nesta ocasião, eles contaram com um público totalmente envolvido.
Show de abertura: Los Otros
Antes mesmo do início da apresentação de abertura, um bom número de fãs já lotava a casa e alguns estavam decididos a não deixar seus lugares nem mesmo para uma pausa no banheiro.
O trio Los Outros, composto por Tom Motta (guitarra e voz), Isabella Menin (baixo e voz) e Vinicius Czaplinski (bateria), foi encarregado de aquecer os ânimos no Cine Joia. No entanto, logo no começo, um problema técnico com o baixo de Isabella interrompeu o show. Tom rapidamente contornou a situação ao iniciar um animado “olê, olê, olá, Lula, Lula!”, que foi recebido com entusiasmo e ecoou várias vezes durante a noite.
Após resolver o contratempo, o grupo mostrou seu carisma e talento em um set curto, mas impactante, sendo calorosamente ovacionado por um público empolgado e atento.
El Mató a un Policía Motorizado: entre música vibrante e esperança política
Com cerca de trinta minutos de atraso, a El Mató subiu ao palco. Composta por Santiago Motorizado (baixo e voz), Willy “Doctora Muerte” (bateria), Manuel “Pantro Puto” (guitarra), Gustavo “Niño Elefante” (guitarra) e Agustín Spassoff “Afloyd” (teclados), a banda iniciou sua apresentação com a canção Navidad en Los Santos. Em seguida, a faixa de abertura do novo álbum, Un Segundo Plan, trouxe à tona as influências dos anos 80 presentes no disco que embasa a turnê.
Após executar La Noche Eterna, um dos sucessos do elogiado álbum La Síntesis O’Konor (2017), o coro em apoio a Lula ressurgiu. Em Diamante Roto, o público se deixou levar pela emoção e iniciou o primeiro mosh da noite, fundindo fervor político e musical em uma conexão entre duas nações que frequentemente se veem como rivais tanto nos esportes quanto na vida cotidiana.
Quando as notas iniciais de Medalla de Oro, uma canção que homenageia a festa argentina pela conquista da Copa do Mundo, começaram a tocar, Pantro Puto colou um adesivo com o rosto de Lula em seu peito. Isso fez com que a plateia explodisse em gritos enquanto fazia gestos em forma da letra “L”, orgulhosos como se estivessem segurando uma taça mundial — ou ao menos sonhando com essa conquista.
Ao término da música, um grupo que acompanhava uma partida entre Grêmio e Internacional pelo celular lançou uma camisa do Grêmio ao palco. Santiago pegou a camisa com cautela, exibiu lentamente o escudo do time para os fãs e perguntou timidamente se estava tudo bem mostrar aquele símbolo. A reação indiferente da audiência tranquilizou-o, permitindo-lhe responder positivamente.
Após as faixas Mujeres Bellas y Fuertes e Más o Menos Bien, os espectadores começaram a gritar “vamo, El Mató”, ao que Santi retribuiu fazendo um coração com as mãos. As músicas seguintes foram Sábado e Tantas Cosas Buenas, antes que Santi fizesse uma pausa nostálgica ao lembrar que já se passaram 19 anos desde a primeira performance da banda em São Paulo — em 2007, no extinto Inferno Club na Rua Augusta. A apresentação no Cine Joia era mais um capítulo dessa história significativa.
Amigo Piedra, Destrucción, e Yoni B, marcaram os momentos mais simbólicos do show. Santiago anunciou que a próxima canção seria dedicada ao “13”, fazendo com que o coro por Lula voltasse à carga novamente. A banda então tocou Excálibur, cujo título remete à lendária espada arturiana, simbolizando apenas aqueles dignos de governar.
Após interpretar El Mundo Extraño strong>, o set principal culminou com El Fuego que Hemos Construido. De maneira rápida e sem qualquer despedida formal, eles deixaram o palco; isso deixou os fãs indecisos sobre pedir bis. O staff subiu para afinar os instrumentos e assim dissipar qualquer dúvida.
O encore teve início com as músicasEl Magnetismo strong >eAhora Imagino Cosas. Santi então anunciou queFuego strong >seria a última canção perguntando se tudo estava bem; ouviu um sonoro “não”. Assim, ignorando o convencional cerimonial de despedidas tão comum entre artistas, eles tocaram aindaChica de Oro strong >eMi Próximo Movimiento para encerrar uma performance vibrante.
Não é surpresa que essa noite tenha passado duas vezes pelo fogo — elemento recorrente na obra da El Mató — encerrando todos os seus álbuns. Este show fez parte de uma turnê mundial bem-sucedida com várias datas esgotadas e demonstrou uma banda impecável que correspondeu à grandiosidade conquistada ao longo dos anos; deixou na plateia uma sensação entre alegria musical e esperança política. Do lado de fora, as ruas ainda estavam molhadas pela chuva da tarde anterior.
A apresentação intensa da El Mató a un Policía Motorizado no Cine Joia é um reflexo do poder da música como forma de expressão política e cultural contemporânea.
