Menos de um dia após a apresentação do documentário biográfico na Cinemateca, parte do festival In-Edit, os irmãos Jeff e Steven McDonald levaram o culto ao Redd Kross para o Cine Joia, um local que se mostrou perfeito para uma banda cuja estética e som estão intimamente ligados ao universo do cinema.
A primeira apresentação da banda em solo brasileiro ocorreu no último sábado (26) e transcendeu a simples ideia de uma parada de turnê, tornando-se um verdadeiro manifesto de resistência do rock alternativo. O evento foi organizado em colaboração entre as produtoras Maraty e Powerline, celebrando a maioridade do festival de documentários musicais e os 40 anos da loja de discos London Calling. Este espaço não só formou gerações apaixonadas por música, mas também proporcionou uma tarde de autógrafos com os integrantes do grupo de power pop.
Para abrir a noite, o grupo Twinpines subiu ao palco junto com o duo Alphawhores, que trouxe seu stoner rock, criando um clima diversificado para o evento. Flávia Durante, criadora do Baile do Bowie e da festa Oye en Espanhol, também animou a plateia entre as apresentações com sua discotecagem. A energia vibrante se manifestou através de sets dinâmicos e até mesmo um stage dive quase arriscado, enquanto a conexão entre os artistas e o público resultava em uma catarse coletiva, caracterizando um dos shows mais memoráveis do semestre. Falar em amor nesse contexto é quase um eufemismo.
Durante a performance principal, era como observar dois jovens explorando suas raízes no underground com seus instrumentos personalizados. Embora marcados pelo tempo, com cabelos grisalhos que testemunham sua trajetória, eles mantinham a essência rebelde desde os tempos de Clorox Girls. Passaram-se 47 anos desde aqueles dias de sol radiante em que foram expulsos de clubes após suas apresentações e foram acolhidos por ícones do hardcore punk. Nesse período relativamente curto, construíram uma discografia que desafia convenções e permanece genuína.
O início da celebração
Pontualmente, o Twinpines iniciou sua apresentação sem muita introdução, representando bem o espírito underground paulistano. Desde 2003 nos pequenos espaços alternativos da cidade, o grupo trouxe uma sonoridade indie dos anos 90 ao palco, sustentada pelas guitarras e vozes de Leo Scriptore, Bruno Monstro e Alê Evans, além da bateria potente de Magoo Félix. Os primeiros que chegaram não perderam tempo em aproveitar cada segundo dessa festa musical enquanto o público começava a lotar a casa. A identidade visual do evento já indicava a atmosfera da noite; Magoo foi responsável pela arte vibrante do flyer.
No palco, essa harmonia se traduziu em melodias perfeitas para aproveitar com air guitar, apresentadas em um repertório composto por dez músicas que abrangeram praticamente todos os lançamentos da banda. O setlist incluiu clássicos como “Waning” e “The Dream of Knife”, além de faixas do álbum Niagara Falls, lançado em 2010, como “Two Numbers Away”, “Trick Little Question” e “Every Interstate”. Para aumentar ainda mais a expectativa, eles apresentaram uma música inédita que integrará seu novo disco em processo de criação antes de finalizar com “Daughter of a Father of an Only Son”.
Entre os shows, Flávia Durante garantiu que a música não parasse nem por um instante. Sua seleção variou do power pop ao rock clássico com Big Star e Cheap Trick até alcanços no indie dos anos 90 com Dinosaur Jr. e Elastica. Conhecida na cena noturna paulistana, Flávia é também criadora do Baile do Bowie e da nova festa Oye en Espanhol.
Antes mesmo que o silêncio tomasse conta novamente entre as apresentações, o Alphawhores subiu ao palco adiantadamente. Este duo panamenho trouxe um stoner rock sem demora para aquecer o público, mergulhando todos numa atmosfera densa com riffs pesados e dissonantes. As viradas energéticas da baterista e vocalista Massiel Pinzón cativaram os presentes ainda acomodados no local. Em conversas paralelas entre os espectadores, alguns compararam sua sonoridade a uma versão invertida dos The Kills ou lembraram das influências desérticas típicas dos trabalhos de Josh Homme; ambas as observações estavam corretas com um toque adicional metalico.
Sem qualquer artifício visual ou iluminação elaborada para distraí-los durante sua performance intensa, a presença física das músicas dominava completamente. O repertório incluiu faixas novas como “Bloodsports” e “Over and Over”, além de “Same Team”, seu primeiro disco. Poti balançava os cabelos grisalhos enquanto extrai sons pesados através de sua pedaleira colocada sobre uma caixa amplificadora; felizmente para aqueles que desejavam estar mais próximos desse impacto sonoro intenso, eles repetiriam essa experiência no Bar Alto no dia seguinte.
Entrando em uma fantasia colorida
Algumas experiências são impossíveis de ignorar. Uma delas se dá quando alguém visivelmente emocionado te cutuca aleatoriamente para saber se você está tão empolgado quanto ela está. Esse tipo de episódio foi recorrente durante o show do Redd Kross à medida que eles ofereciam sua performance à plateia: não violentamente, mas como se estivessem revelando nuances complexas através de suas músicas vibrantes. Assim que você conseguia captar a essência daquela experiência musical única, eles já estavam levando todos para outro lugar — como uma fantasia cheia de cores — onde tudo o que restava era seguir suas melodias tanto fisicamente quanto mentalmente diante das convenções sociais dominantes. A energia era tão contagiante que logo na segunda música todos estavam suados sem demonstrarem cansaço.
O som emanava das caixas combinando romance com punk rock num estilo irreverente e performático – tudo isso sem deslizes técnicos ou interrupções indesejadas. Mesmo aqueles menos familiarizados com a discografia da banda se deixaram levar pela animação geral; após momentos intensos na apresentação surgiram expressões perplexas tentando entender aquele sentimento singular despertado pela música deles. Essa é a verdadeira magia do grupo: uma anarquia ambulante na forma mais pura possível; no caos vibrante criado pelos irmãos Jeff e Steven McDonald conseguia-se sentir um romantismo quase hiperativo dançando entre ideias enquanto riffs atravessavam as ondas sonoras iluminadas pelas luzes refletindo seus ternos salpicados com tinta.
É essa fusão chamada ‘’hippie-punk-rajneesh’’, como mencionou Os Replicantes; mas há muito mais ingredientes nesse caldeirão musical: desde a sinergia completa entre os irmãos até as contribuições energéticas da bateria firme de Dale Crover (ex-Nirvana) e as criações cativantes trazidas por Jason Shapiro na guitarra base. Não surpreende ver tamanha ansiedade pelo reencontro ao vivo após o cancelamento daquele show planejado em 1994 junto aos Ramones e Stone Temple Pilots; falar sobre redenção seria simplista demais nesta situação. Ao recordar essa história no palco Steven declarou: “vamos fazer cada minuto valer” — algo que conseguiram realizar brilhantemente.
Com um setlist impressionante contendo 26 músicas diversas superando todas as expectativas estabelecidas previamente — conforme prometido por Jeff — houve surpresas surgindo inesperadamente durante toda a apresentação! Um pandeiro quebrado aqui ou ali mudava súbita ou gradualmente seu tom conforme Dale Crover batucava forte como se fosse desferir golpes contra seu instrumento; enquanto Jeff alternava entre desempenhar seu papel principal na guitarra garantindo peso distorcido à noite e dedicando momentos inteiros à performance interativa junto ao público formando harmonias unidas nas vozes coletivas.
A trupe apresentou desde composições recentes até clássicos adorados pelos ouvintes como “Lady in the Front Row” — onde Jeff usou um xale animal print enquanto realizava movimentos performáticos acentuando ainda mais seu refrão — passando pela nostálgica “Jimmy’s Fantasy” encerrando aquele bloco inicial homenageando Linda Blair mesclada aos solos clássicos dos Beatles em “I Want You (She’s So Heavy)”. Essa não foi apenas uma releitura qualquer daquela noite; também executaram “I’ll Blow You a Kiss in the Wind”, famosa canção composta por Tommy Boyce & Bobby Hart conhecida pelo sitcom A Feiticeira. Em meio aos aplausos surgiu novamente um balão em formato coração – agora considerado quase um adereço tradicional daquela casa – retornando à cena acompanhando outros covers vibrantes numa versão acelerada da otimista “I Won’t Be Long”, igualmente famosa dos Fab Four! É desafiador escolher apenas um momento alto dessa apresentação pois seria redutivo cair nas armadilhas dos hits populares quando mesmo nas canções menos conhecidas sempre extraíam algo fresco ao encher aquele espaço repleto danças contagiantes interações únicas trejeitos cativantes!
Contudo foi durante o encore onde realmente residiam as surpresas! Caso você olhasse atentamente ao setlist fixo no chão poderia jamais imaginar tudo aquilo que estava prestes a acontecer! Desculpem hermanos: vocês podem ter Messi mas nós brasileiros tivemos isso aqui! Retornaram trazendo à tona suas origens numa exibição rápida avassaladora começando por “Annette’s Got the Hits” seguida rapidamente por “Clorox Girls” além quatro outras faixas icônicas desses primeiros dias reveladores mostrando novamente todo poder ancestral presente dentro deles!
Ao final da apresentação ficou claro que Redd Kross representa exatamente aquilo oposto às fórmulas limitadoras convencionais sobre como deve ser feita música atualmente! O que torna esta banda ainda mais intrigante vai além das estratégias promocionais voltadas às antigas idolatrias: há neles essa essência intacta recheada daquela inocência infantil chamada ‘Peter Pan na Terra do Nunca’ quando tocamos nossas canções favoritas… E usando poeticamente esta licença poética: quão gratificante foi bagunçar pular deixar-se levar junto aos sons transmitidos pelo Redd Kross celebrando assim resistência daqueles artistas dedicados fazendo girar continuamente essa roda chamada música alternativa!
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